Política

O dossiê judicial de Deiró Moreira Marra — uma cronologia de condenações, denúncias e processos que acompanham o ex-prefeito de Patrocínio há quase uma década

Deiró Moreira Marra governou Patrocínio até 2024 e saiu do cargo carregando uma condenação criminal a 3 anos e 3 meses de reclusão por corrupção passiva; três denúncias ativas do MPMG, incluindo concussão e falsidade ideológica; processo de licitações irregulares em duas gestões anulado por vício formal sem análise do mérito; condenação eleitoral com inelegibilidade de oito anos por abuso de poder político com uso da máquina pública; e, em 2020, enquanto tentava a reeleição, seu irmão — que ele havia nomeado Secretário Municipal de Obras — assassinou a tiros um candidato a vereador durante transmissão ao vivo, enquanto a vítima denunciava irregularidades da própria prefeitura

Há uma frase que Deiró Marra disse na noite de 24 de setembro de 2020, horas depois de seu irmão Jorge ter matado a tiros o candidato a vereador Cássio Remis, de 38 anos. Diante das câmeras, o então prefeito confirmou a autoria do irmão e acrescentou que o crime “não muda nada” na sua campanha. Disse ainda que aquilo “pode acontecer com qualquer um, qualquer cidadão”.

Essa frase resume muito sobre Deiró Moreira Marra.

Cássio Remis estava fazendo uma live quando morreu. Ele denunciava, em transmissão ao vivo, que funcionários da prefeitura realizavam serviços particulares em frente ao imóvel que seria o comitê de reeleição do prefeito Deiró Marra.

Jorge Marra, então Secretário Municipal de Obras — cargo para o qual havia sido nomeado pelo próprio prefeito —, chegou ao local, tomou o celular da pessoa que gravava e fugiu em direção à secretaria. Cássio o seguiu para recuperar o aparelho. Na porta do local, Jorge sacou uma arma e deu vários tiros em Cássio, que morreu no local. Jorge fugiu e só se entregou três dias depois. [Rádio Itatiaia](https://www.itatiaia.com.br/cidades/2024/04/18/justica-anula-absolvicao-de-irmao-de-prefeito-que-matou-ex-vereador-durante-live-em-mg)

Jorge Marra foi julgado em outubro de 2022 e absolvido do homicídio pelo júri popular, que acolheu a tese de legítima defesa.

Recebeu condenação apenas por porte ilegal de arma de fogo. O TJMG, contudo, atendeu recurso do Ministério Público e anulou o julgamento, entendendo que a decisão dos jurados contrariou as provas dos autos. Um novo júri foi determinado, sem data definida. [Estado de Minas](https://www.em.com.br/gerais/2024/03/6825183-tj-anula-julgamento-de-jorge-marra-irmao-do-prefeito-de-patrocinio.html)

O assassinato é o episódio mais grave do entorno político de Deiró. Mas está longe de ser o único.

A condenação criminal

O TJMG condenou Deiró Marra à pena de 3 anos e 3 meses de reclusão e ao pagamento de 17 dias-multa, por corrupção passiva prevista no artigo 317 do Código Penal, em regime aberto. [Patos Hoje](https://patoshoje.com.br/noticias/prefeito-de-patrocinio-deiro-marra-e-condenado-por-corrupcao-em-procedimento-da-vale-fertilizantes-69691.html) Ele não foi preso — o regime aberto dispensa o encarceramento —, mas carrega uma condenação criminal formal, proferida pela 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a partir de denúncia do Ministério Público.

O crime ocorreu em setembro de 2017, logo após sua posse como prefeito: ele solicitou diretamente à Vale Fertilizantes que contratasse a Viação Cidade Paraíso Ltda. — pertencente ao irmão e ao sobrinho, da qual ele próprio seria sócio oculto — para transportar os trabalhadores da empresa.

Diante da recusa, revogou sem motivação legal o decreto de conformidade ambiental que a gestão anterior havia concedido à mineradora. O TJMG considerou sua culpabilidade acentuada, por exercer o cargo mais alto do Executivo Municipal e violar a confiança depositada pelos eleitores. [Patos Hoje](https://patoshoje.com.br/noticias/prefeito-de-patrocinio-deiro-marra-e-condenado-por-corrupcao-em-procedimento-da-vale-fertilizantes-69691.html)

A Viação Cidade Paraíso é empresa do setor de transportes. Deiró Marra é, ele mesmo, empresário do setor de transportes — negócio que carregou durante seus três mandatos consecutivos como deputado estadual na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, de 2007 a 2016. O interesse privado e o mandato eletivo sempre caminharam juntos.

Condenado e voltou a agir da mesma forma

O Ministério Público não parou na primeira condenação. Já em 2022, com Deiró ainda no cargo e já sentenciado pelo TJMG, o MPMG ofereceu nova denúncia, desta vez por concussão. O procurador de Justiça pediu expressamente seu afastamento do cargo, justificando que o gestor, mesmo condenado por corrupção poucos meses antes, continuava agindo de forma idêntica.

A nova denúncia aponta que seu secretário municipal, a seu mando, condicionou a liberação do loteamento Florenza à venda de lotes abaixo do preço de mercado para empresa ligada ao ex-prefeito. [Patos Hoje](https://patoshoje.com.br/noticias/prefeito-deiro-marra-e-secretario-de-patrocinio-sao-denunciados-por-concussao-e-mp-pede-afastamento-74910.html)

O irmão, o documento falso e os lotes da Avenida General ASTOLFO Mendes

Em outubro de 2024, já no fim do mandato, Deiró Marra e seu irmão foram denunciados pelo MPMG por falsidade ideológica e uso de documentos falsos. Segundo a denúncia, ambos teriam inserido informações falsas em uma procuração para viabilizar a compra de oito lotes destinados a empresa do irmão e do filho — terrenos originalmente arrematados em leilão público promovido pela própria prefeitura em 1995. [O TEMPO](https://www.otempo.com.br/politica/2024/10/14/prefeito-de-patrocinio-e-irmao-sao-denunciados-por-falsidade-ide)

As licitações — investigadas, mas sem julgamento de mérito

O STF anulou em junho de 2025 o processo que investigava irregularidades em licitações realizadas durante as duas gestões de Deiró Marra, entre 2017 e 2024. A anulação foi concedida por vício processual: o MPMG conduziu a investigação por quase três anos sem supervisão do TJMG, violando o foro por prerrogativa de função. O STF não analisou se houve ou não fraude nas licitações. O mérito permanece sem julgamento. [Patrociniofacil](https://patrociniofacil.com.br/stf-anula-processo-contra-ex-prefeito-deiro-marra-por-falha-processual/)

Inelegível por oito anos — e indícios de compra de votos

A Justiça Eleitoral de Patrocínio condenou Deiró Marra por abuso de poder político nas eleições de 2024, decretando sua inelegibilidade por oito anos e multa de R$ 80 mil.

A sentença aponta o uso de servidores e veículos da prefeitura para distribuir cestas básicas em bairros de maior vulnerabilidade social às vésperas do pleito, sem vínculo a qualquer programa social.

A magistrada apontou ainda indícios de compra de votos, falsidade ideológica e improbidade administrativa, determinando o envio do processo ao Ministério Público Eleitoral e à Promotoria do Patrimônio Público. [Modulofm](https://modulofm.com.br/artigo/justica-eleitoral-de-patrocinio-condena-ex-prefeito-deiro-marra-que-fica-inelegivel-mamazao-e-valtinho-sao-multados)

O significado jurídico — e este é o mais delicado

Aqui mora uma ironia concreta. O TRE-MG, ao reformar a condenação por abuso de poder político no caso das cestas básicas, utilizou exatamente essa derrota como um dos fundamentos.

O argumento foi o de que a conduta irregular não teve capacidade de interferir no resultado eleitoral, já que o candidato apoiado por Deiró perdeu por larga margem.
Ou seja: a própria derrota que o eleitorado impôs como punição serviu, paradoxalmente, como argumento jurídico para atenuar a responsabilidade eleitoral de Deiró perante o TRE. A Justiça Eleitoral de primeira instância o havia condenado. O TRE reformou parcialmente, amparado — entre outros fundamentos — justamente nessa derrota.

Isso é o que torna o episódio juridicamente contraditório: a punição democrática virou escudo jurídico. Pior de tudo isso ainda é o fato da inverdade, comemorar que foi absolvido, sendo que não foi. 

258 processos

O Jusbrasil registra 258 processos que mencionam o nome Deiró Moreira Marra, com predominância no TJMG e no TRE-MG, sendo o Ministério Público a parte mais recorrente ao seu lado nos processos identificados. [Jusbrasil](https://www.jusbrasil.com.br/processos/nome/39258336/deiro-moreira-marra)

Diante do exposto, o que se tem é a biografia judicial de um político que governou Patrocínio por dois mandatos, exerceu três mandatos de deputado estadual, foi condenado criminalmente a mais de três anos de reclusão, voltou a ser denunciado enquanto ainda ocupava o cargo já sentenciado, assistiu o irmão que nomeou como secretário assassinar um candidato a vereador durante uma live de denúncia, foi declarado inelegível por oito anos pela Justiça Eleitoral e acumula quase 260 processos nos sistemas judiciais de Minas Gerais.

Patrocínio conhece esse nome há décadas. E a Justiça também.

Todas as informações aqui estão com os links das fonte para verificação dos fatos.

DIREITO DE RESPOSTA

A Folha de Patrocínio assegura a todos os mencionados em suas publicações o pleno exercício do direito de resposta, garantido pelo art. 5º, inciso V, da Constituição Federal e regulamentado pela Lei nº 13.188/2015, desde que fundado em fato concreto e determinado.

O prazo para exercício é de 60 dias a partir da data da publicação, contado de forma decadencial. A resposta será veiculada gratuitamente, com espaço e destaque proporcionais ao conteúdo que motivou o pedido.

Manifestações devem ser encaminhadas pelo e-mail de redação ou correspondência formal, com indicação objetiva do conteúdo questionado, da data de publicação e da demonstração do fundamento concreto que embasa o pedido.

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