Panfleto de Deputada Teria Chegado Junto ao Carnê do IPTU em Três Marias
Enquanto administração municipal acumula CPI, investigações do MPMG e denúncias de moradores, material de campanha teria chegado ao envelope do contribuinte — e a pergunta que fica é: Três Marias vai com a outra?

Três Marias tem uma represa famosa. Ao que tudo indica, também represa o constrangimento.
Segundo denúncia veiculada pelo portal Folha 3M, moradores do município teriam recebido, junto com o carnê do IPTU 2025, um panfleto de propaganda da deputada estadual Maria Clara Marra. A peça celebra supostas conquistas do mandato com a desenvoltura de quem, caso confirmada a distribuição conjunta, não teria enxergado qualquer problema em transformar o serviço público municipal em extensão de gabinete parlamentar. A pergunta, até o momento sem resposta oficial da administração municipal, continua no ar: quem autorizou, quem executou e como esse material chegou ao envelope do contribuinte?
A denúncia expõe uma arquitetura política de manual: a deputada libera recursos ao município, o Executivo local, segundo o portal Folha 3M, teria retribuído com a estrutura disponível — e o contribuinte, que pagou o imposto, recebe o pacote completo sem ter pedido, sem ter autorizado e, na maioria dos casos, sem ter dimensionado ainda o tamanho do que está diante dos seus olhos.
O EXECUTIVO MUNICIPAL E SEUS QUESTIONAMENTOS
O Executivo municipal de Três Marias não atravessa um momento sem questionamentos. Conforme registros de veículos de comunicação locais e denúncias de moradores, enquanto o panfleto da deputada alardeava investimentos e fotografias sorridentes, a cidade acumulava um cardápio de mazelas: buracos espalhados pelas ruas, vegetação crescendo com mais vigor do que as obras prometidas, corte de alimentação no hospital municipal e diárias pagas pela gestão com valores questionados por moradores e veículos locais.
A cidade range. O panfleto sorri. A combinação é reveladora.
CPI, MPMG E O PROCURADOR QUE CONHECIA OS CORREDORES
O quadro se complica — ou se esclarece, a depender do ângulo — quando se examina o histórico recente da gestão municipal. A Câmara de Três Marias instaurou CPI para investigar irregularidades na administração, entre elas acusações de nepotismo formalizadas pelo próprio ex-procurador-geral do município — alguém que ocupou cargo de confiança e formalizou as acusações pelas vias competentes. O Ministério Público Estadual também movimenta os autos.
Quando o MPMG e o Legislativo municipal apontam para o mesmo endereço, não se trata mais de disputa política. Trata-se de investigação em curso — e seus desdobramentos são acompanhados de perto pela população.
A DEPUTADA, O PREFEITO E O ENVELOPE DO CONTRIBUINTE
A relação entre deputada e Executivo municipal é, em si, legítima. Parlamentares liberam emendas, prefeituras executam. A democracia prevê essa dinâmica. O problema começa — e se torna grave — quando essa parceria política deixa o gabinete e ocupa o envelope do contribuinte.
Usar a distribuição de correspondência oficial do município, o carnê do IPTU, documento que todo morador recebe e nenhum ignora, para veicular propaganda de mandato parlamentar configura, no mínimo, uma confusão entre o patrimônio público e o interesse particular — deliberada ou não, igualmente inadmissível — sem que qualquer autorização legal tenha sido apresentada publicamente até o momento. No máximo, é matéria para o Tribunal Regional Eleitoral e para o Ministério Público — instâncias que já foram acionadas em investigações anteriores envolvendo o município.
O ROTEIRO QUE MINAS JÁ CONHECE
Quem acompanha a história política do interior mineiro reconhece o enredo sem precisar virar muitas páginas: poder local concentrado, aliança entre Executivo municipal e representante estadual, estrutura pública supostamente operando em benefício de projetos pessoais, conforme as investigações em curso, e o eleitor tratado como coadjuvante de uma peça cujo roteiro outros escreveram. O figurino muda a cada geração. O roteiro, teimosamente, permanece.
Em Três Marias, o carnê do IPTU virou o novo palanque. Se confirmada a distribuição conjunta, o custo recaiu sobre estrutura alheia à campanha. A questão de quem arcou com essa conta ainda aguarda resposta oficial.
O QUE A LEI DETERMINA
A distribuição de material de cunho eleitoral por meio de serviços públicos municipais pode configurar uso da máquina administrativa para fins eleitorais, conduta expressamente vedada pelo artigo 73 da Lei nº 9.504/1997 — aplicável tanto ao gestor que pratica quanto àquele que se beneficia da prática. Se comprovado o envio conjunto com correspondência oficial da prefeitura, a denúncia formal ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais e ao Ministério Público Estadual é não apenas cabível, como recomendável.
As consequências previstas em lei vão de multa à cassação de registro de candidatura. O caminho jurídico existe, está pavimentado e é de acesso público.
O DIREITO DE RESPOSTA
A reportagem aguarda posicionamento à deputada estadual Maria Clara Marra e à Prefeitura Municipal de Três Marias acerca da distribuição do material junto ao carnê do IPTU, dos questionamentos em curso na CPI municipal e das denúncias veiculadas pelo portal Folha 3M.
O silêncio, neste caso, é uma resposta como qualquer outra.
TRÊS MARIAS VAI COM A OUTRA?
A pergunta que paira sobre o espelho d’água do reservatório é direta e sem rodeios: a população de Três Marias vai continuar aceitando gestão investigada pelo MPMG e pela Câmara Municipal, hospital com corte de alimentação, ruas esburacadas, diárias com valores questionados e imposto que, segundo denúncia, teria chegado com propaganda dentro — ou vai decidir que essa conta, diferentemente do IPTU, não será paga?
O carnê chegou. A fatura política também.
Cabe ao eleitor, e somente a ele, decidir qual das duas será quitada.
As irregularidades mencionadas nesta reportagem são objeto de investigações em curso por parte do Ministério Público do Estado de Minas Gerais e da Câmara Municipal de Três Marias. Cidadãos que possuam provas ou informações adicionais podem registrar denúncias formais no TRE-MG pelo telefone 0800 644 4510 ou no MPMG pelo Disque-Denúncia 127.






📢 Anuncie no portal mais visto de Patrocínio!
Coloque sua marca em evidência e alcance milhares de leitores diariamente.