Prefeito de Três Marias tenta matar a CPI, leva virada da justiça e segue acuado sob 40 denúncias no MP
Danilo Barbosa Rezende recorreu ao Judiciário para encerrar a investigação que ele mesmo ajudou a construir — e falhou; pai secretário se recusa a depor, oitivas expõem a gestão e relatório final se aproxima com poder de cassar o mandato

Existe um tipo de gesto que dispensa explicação. Quando um prefeito que proclama inocência corre para a justiça para tentar fechar uma CPI, o recado está dado — não pelos investigadores, não pela oposição, mas pelo próprio gestor. Danilo Barbosa Rezende (Republicanos) fez exatamente isso em Três Marias. Tentou enterrar a comissão parlamentar que investiga sua administração antes que ela chegasse ao fim. Não conseguiu. A justiça barrou a manobra e foi além: afirmou que suspender a CPI contrariaria o interesse público e que os fatos investigados estão devidamente registrados. Registrados. A palavra é essa.

A CPI nasceu de uma denúncia que veio de dentro. Bruno Rafael Souza Nascimento ocupava a chefia da Procuradoria-Geral do Município — cargo de indicação direta do prefeito, um dos postos de maior confiança dentro de qualquer gestão municipal. Uma semana depois de deixar a função, Bruno virou para o outro lado e entregou o que sabia aos vereadores. Quando o homem escolhido a dedo pelo próprio prefeito para guardar os segredos jurídicos da administração decide romper o silêncio, algo muito grave aconteceu dentro daquela prefeitura.
Desde 27 de janeiro, quando a Câmara instalou formalmente a comissão, os trabalhos não pararam. Reuniões frequentes, suporte jurídico especializado, ofícios disparados para coleta de provas, ata notarial recebida em cartório e atualmente em análise — e as oitivas, que a Câmara teve a transparência de publicar integralmente no YouTube. As sessões com Max, Dr. Bruno e Lucas repercutiram com força e deixaram a situação do prefeito ainda mais exposta perante a opinião pública. Quem assistiu, assistiu. Quem não assistiu, pode assistir quando quiser.
No meio disso tudo, surgiu um episódio que sintetiza o nível de desconforto dentro do próprio núcleo do governo: o pai do prefeito, secretário municipal de Urbanismo, se recusou a comparecer à CPI para depor. O filho no centro da investigação, o pai se esquivando do depoimento. A comissão já articula a condução coercitiva — medida que, além de prevista em lei, vai arrastar publicamente para dentro da sala de oitivas alguém que claramente preferia ficar longe dali.
E a CPI é apenas uma das frentes. Cerca de 40 procedimentos extrajudiciais tramitam no Ministério Público de Minas Gerais contra a administração de Três Marias. Licitações suspeitas, contratos administrativos, gestão de pessoal, repasses de recursos, contratação de serviços e eventos, prestação de serviços públicos — quarenta procedimentos abertos pelo MP não surgem do nada. Surgem de denúncias. De fatos. De rastros.
Pressionado por todos os lados, Danilo Barbosa Rezende foi para as redes sociais. Publicou stories, reclamou do “sistema”, disse que por sua família não disputará a reeleição em 2028 e prometeu dar nomes aos “bois” — uma ameaça velada e transparente aos vereadores que conduzem a CPI. Mas a promessa para 2028 tropeça numa contradição que o prefeito não explicou e provavelmente não vai explicar: se há nomes a dar, por que esperar dois anos? Por que não sentar diante da comissão, abrir o jogo e nomear cada um agora, com câmera ligada e microfone aberto? O silêncio atual já é uma resposta.

A vereadora Luciana da Silva, que preside a CPI, conduz os trabalhos com firmeza e declarou surpresa com a tentativa do prefeito de encerrar a investigação pela via judicial. A previsão é que a comissão conclua os trabalhos no final de abril. Com o relatório na mão, os vereadores terão em suas mesas o poder de cassar o mandato de Danilo Barbosa Rezende.
Três Marias chegou até aqui. Falta pouco.
As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade editorial da Folha de Patrocínio e não substituem conclusões judiciais ou parlamentares. A reportagem está à disposição do prefeito Danilo Barbosa Rezende para publicar sua versão dos fatos.



